New York Times, 10/01/09:* **
O que você não sabe sobre Gaza
*Rashid Khalidi*
Quase tudo o que levaram você a acreditar sobre Gaza está errado. Abaixo estão alguns poucos pontos essenciais que parecem estar ausentes daconversa, grande parte da qual transcorrendo na imprensa, sobre o ataque deIsrael à faixa de Gaza.
Os habitantes de Gaza
A maioria das pessoas que vivem em Gaza não está lá por opção. A maioria dos1,5 milhão de pessoas espremidas nos aproximadamente 360 quilômetrosquadrados da faixa de Gaza pertence a famílias que vieram de cidades ealdeias fora de Gaza, como Ashkelon e Beersheba. Elas foram expulsas paraGaza pelo exército israelense em 1948.
A ocupação
Os moradores de Gaza vivem sob ocupação israelense desde a Guerra dos SeisDias, em 1967. Israel ainda é amplamente considerado um poder de ocupação,apesar de ter removido suas tropas e colonos da faixa em 2005. Israel aindacontrola o acesso à área, as importações e exportações e a entrada e saídadas pessoas. Israel tem controle sobre o espaço aéreo de Gaza e sua costamarítima, e suas forças entram na área à vontade. Como poder de ocupação,Israel tem a responsabilidade segundo a Quarta Convenção de Genebra deassegurar o bem-estar da população civil da faixa de Gaza.
O Bloqueio
O bloqueio de Israel à faixa, com o apoio dos Estados Unidos e da UniãoEuropeia, tem se tornado cada vez mais severo desde que o Hamas venceu aseleições para o Conselho Legislativo Palestino em janeiro de 2006.Combustível, eletricidade, importações, exportações e a entrada e saída daspessoas da faixa têm sido lentamente sufocados, levando à problemas desaneamento, saúde, abastecimento de água e transporte que colocam as vidasem risco.O bloqueio sujeitou muitos ao desemprego, miséria e desnutrição. Issorepresenta uma punição coletiva -com apoio tácito dos Estados Unidos- de umapopulação civil por ter exercido seus direitos democráticos.
O cessar-fogo
A suspensão do bloqueio, juntamente com um cessar dos disparos de foguetes,foi um dos termos-chave do cessar-fogo de junho entre Israel e o Hamas. Este acordo levou à redução dos foguetes disparados de Gaza, de centenas em maioe junho para um total de menos de 20 nos quatro meses subsequentes (segundonúmeros do governo israelense). O cessar-fogo foi rompido quando as forças israelenses lançaram um grande ataque aéreo e por terra no início denovembro; seis membros do Hamas teriam sido mortos.
Crimes de guerra
Atacar civis, seja pelo Hamas ou por Israel, é potencialmente um crime de guerra. Toda vida humana é preciosa. Mas os números falam por si só: quase700 palestinos, a maioria deles civis, foram mortos desde o início do conflito no final do ano passado. Em comparação, cerca de uma dúzia de israelenses foram mortos, muitos deles soldados.
Negociação é uma forma mais eficaz de lidar com foguetes e outras formas de violência. Isso poderia ter acontecido se Israel tivesse cumprido os termos do cessar-fogo de junho e suspendido o bloqueio à Faixa de Gaza. Esta guerra contra a população de Gaza não se trata realmente de foguetes. Nem envolve a "restauração da dissuasão por Israel", como a imprensa israelense tenta fazer você acreditar. Mais reveladoras foram as palavras deMoshe Yaalon, o então chefe do Estado-Maior das Forças de Defesa israelenses, em 2002: "Os palestinos precisam entender nos recessos mais profundos de sua consciência que são um povo derrotado".
**Rashid Khalidi, um professor de estudos árabes da Universidade deColúmbia, é autor do futuro livro "Sowing Crisis: The Cold War and AmericanDominance in the Middle East" [Semeando crises: a Guerra Fria e o domínioamericano no Oriente Médio].*