O “puxirao” no NACi ou “minha vida de Penélope”.
Um “puxirao”, que conhecemos na vida quilombola, sabemos na pele que nao é coisa fácil. Segundo Bartomeu Melià, potirô é uma palavra de origem guarani que quer dizer "muitas maos". Pô é mao em guarani.
Aproveito para provocar aqui também uma memória a várias maos. Quero recuperar alguns episódios para ajudar a memória e, por certo, evocar a de voces já que eu nao participei de tudo. Bem, eu resolvi ser propositalmente incompleta, para nao ser chata como um relatório da Fapergs.
Desde final de março de 2008, quando definimos conjuntamente nossa agenda, realizamos aquilo que estava ao alcance e que nossos inúmeros compromissos permitiam:
No primeiro semestre, além das defesas de mestrado e doutorado (Beatriz, Ana Paula Comin, Letícia), que constituem um momento de aprendizado muito importante, debatemos no NACI temas como Direitos Humanos na antropologia, Saúde Pública com a participaçao de convidados e organizaçao de Miriam Vieira e Lucenira.
Mesmo que a reuniao da ABA possa ter interrompido nossa agenda, foi um momento de reencontro para muitos que migraram para Brasilia e outros pagos...
Lá na ABA em Porto Seguro, pudemos brindar a bolsa pós-doc junior de Miriam Vieira (com Claudia aqui no NACi), nos despedir de Felipe e Débora (que se preparavam para as terras frias do Canadá), roer as unhas e torcer pelo sucesso de Pedro Nascimento realizando um concurso lá onde faz calor de verdade. Foi o momento de planejar os reencontros e, em particular, as visitas periódicas de Patrice para participar das atividades do NACi no segundo semestre.
Entre um brinde e outro, também pudemos brindar a chegada de 4 livros trabalhados por pesquisadores em equipe. Tanto o fabricando a vida, livro organizado por Débora e Juliana, quanto o livro organizado por Laura Lopez, Daniel Etcheverry, Simone Cruz e Miriam Vieira sobre saúde da populaçao negra....e ainda os Antropólogos em Açao e Cartografias da Imigraçao, nao sao produtos de 2008-2009.
Nao sao só 4 livros, mas o resultado de um longo trabalho coletivo em vários puxiroes.
Desde entao, os lançamentos foram eventos e que fizeram circular os resultados a um público mais amplo do que os pesquisadores e seus contratantes...
Talvez seja nisso que o NACi se singularize. Em diferentes e pequenos grupos de afinidade e trabalho muitas coisas sao aprendidas para além dos textos publicados. Mesmo que a publicaçao seja um modo de dar materialidade a todo o esforço dessa produçao de conhecimento, ainda fica a sensaçao de que os 4 livros nao sao apenas apenas uma publicaçao, mas uma produçao de conhecimento coletiva que entra em outra sensibilidade na formaçao de antropólogos...trabalhar coletivamente nao é de todo fácil, mas quando acontece é uma enorme satisfaçao.
Assim, mesmo que todos tenham uma agenda individual de apresentaçoes de trabalhos em eventos fora de Porto Alegre, ou em Porto Alegre, gostaria de agradecer o esforço de todos em compartilhar e reunir pesquisadores individualmente tao diversos.
O segundo semestre foi igualmente intenso, sabemos que além de uma agenda coletiva, as agendas individuais sao repletas de exames de qualificaçao (Dulce, Fanny).
O puxirao nao é fácil, parar o que é de exigencia individual para dar um sangue a mais...só vale a pena se houver retorno, diálogo e criaçao.
As pessoas que ali circulam se dedicam a temas muito diversos que se repartem entre imigraçao, saúde, mídia, adoçao, violência, direitos sociais, identidade, gênero, entre tantos, por vezes parece um desafio impossível dialogar e encontrar uma mesma “frequencia” (uma alusao a ondas de rádio – e veja que isso nao é sintonia, nao vejo monofonia).
De todo modo, tecer diálogos, abrir os ouvidos dos nacianos para outras sensibilidades (e temas), foi a tarefa para a qual contamos com nossos convidados nesse segundo semestre.
No segundo semestre, propusemos discutir temas “em comum” como as tensoes entre ciência e política, saúde pública, família e adoçao, territorialidades negras e relaçoes raciais. Para isso contamos com convidados: Elisabeth Imaz (pós doutorado), Joao Biehl (palestrante), José Maurício Arruti (debates no NACi), Monica Dantas e Luciana Prass (palestrantes) bem como professores da casa que constituem interlocutores muito presentes como José Carlos dos Anjos e Arlei Damo. Tem também a “categoria retornados”, como Patrice Schuch e Rogerio Rosa, Patricia Fasano, Pilar Uriarte... uma espécie de a volta dos que recém foram...e que sempre serao muito bem vindos ao diálogo. Tivemos inúmeros convidados que nos colocaram questoes fundamentais, é o caso dos profissionais de saúde coletiva e de ativistas do movimento negro.
Entre uma atividade e outra, é sempre importante lembrar o destaque dos bolsistas de iniciaçao científica nas diversas atividades do NACI – Tania Schneider, Marcele Lagreca, Luciana Pess e Ana Paula Arosi foram o “fio terra” das diversas atividades. Tornando o ambiente acolhedor, estando cientes e presentes em uma boa discussao, seja lá qual for o tema, talvez tenham aproveitado mais do que qualquer um de nós porque viram tudo e nao só aquilo que toca a seu projeto urgente. Que inveja!
Esse Naci é um “entra e sai” de gente, nem posso dizer quantos pesquisadores tem a chave da sala, parece a multiplicaçao dos paes. Demorei para me dar conta que isso é herança da Claudia, um jeito de organizar o mundo com multiplas entradas, coisa da matemática. Eu tiro proveito disso sempre que esqueço a cafeteira ligada sei que há uma equipe de bombeiros solidária a entrar em cena.
Só um estudo dos usos e sobre a circulaçao de chaves da sala dariam um pouco de concretude para o modo como circulam pessoas e idéias por ali, saem a campo (Pilar, Fanny e Daniel entre outros), retornam (Helô, Miriam Chagas) e os que finalizam textos (Laura, Pilar), esquecem o pen drive, sofrem seus infortúnios de “perder” textos, equipamentos...o que lamento muito. Vamos levando e tentando manter a morada em ordem.
Nessa circulaçao nao vejo o Naci como um centro gravitacional. Tem gente que vai trilhar campo lá em Montevideu (Alex) e outros que vem de lá (Pilar e Daniel), outros circulam pelo Paraná! Assim, Marcele faz as malas e vai para seu primeiro lugar na UFPR e de lá vem Maira de mala e cuia – passar uns tempos conosco. E temos notícias dos mais ousados que foram para Dourados (Cintia) ou para casa (Keyla e Pedro Nascimento) lá no Brasil distante. Sao Paulo atualmente parece tao longe...onde anda a Verinha?
Eu nao sei nao, mas é que às vezes me sinto um pouco Penélope esperando Ulisses...Keyla sugere reunioes tele-conferencia...acho que estamos rumando para isso. Depois do grupo naci no yahoo, uma idéia de Jonas, quem sabe a tecnologia alarga mais a rede?
Em verdade, essa enorme circulaçao de pessoas no NACi me dá uma sensaçao de “safra de vinho”, nao? Tá certo, alguém nos esmaga feito uvas e tenta extrair o melhor que temos, mas o resultado final é saboroso e deve ser bebido coletivamente. Afinal, nao há puxirao sem festa.
Um feliz final de ano,
Denise